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Consequŕncias na vida adulta de vÝtimas de abuso sexual na infÔncia e adolescŕncia
 
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21/11/2019

Consequŕncias na vida adulta de vÝtimas de abuso sexual na infÔncia e adolescŕncia

Neuropsicˇloga Roselene EspÝrito Santo Wagner Ú uma das estudiosas que se dedica a este tema

Nos últimos 10 anos, até 2018, de acordo com dados do Ministério da Saúde, foram notificados mais de 190 mil casos de violência sexual, sendo 58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 (45,0%) contra adolescentes. Chama atenção a vulnerabilidade dos mais jovens. Entre as crianças, o maior número de casos de violência sexual acontece com crianças entre 1 e 5 anos (51,2%). Já entre os adolescentes, com os jovens entre 10 e 14 anos (67,8%).

Sabe-se através de depoimentos e estudos de especialistas na área, que a maioria das ocorrências, tanto com crianças quanto com adolescentes, ocorre dentro de casa e os agressores são pessoas do convívio das vítimas, geralmente familiares, e a violência tende a ser praticada mais de uma vez.

A neuropsicóloga Roselene Espírito Santo Wagner é uma das estudiosas que se dedica a este tema, que é ainda cercado de tabu na sociedade e cujas vítimas sofrem em sua maioria em silêncio. Ela fala sobre as consequências do abuso sexual de jovens e define o conceito: “Define-se abuso ou viole╠éncia sexual na infa╠éncia e adolesce╠éncia como a situac╠ža╠âo em que a crianc╠ža, ou o adolescente, e╠ü usada para satisfac╠ža╠âo sexual de um adulto ou adolescente mais velho, incluindo desde a pra╠ütica de cari╠ücias, manipulac╠ža╠âo de genita╠ülia, explorac╠ža╠âo sexual, voyeurismo, pornografia, exibicionismo, ate╠ü o ato sexual, com ou sem penetrac╠ža╠âo, sendo a viole╠éncia sempre presumida em menores de 14 anos”.

ÔÇĘPerfil do abusador

A Dra. Roselene Wagner aponta que geralmente é de difi╠ücil suspeita e complicada confirmac╠ža╠âo a identificação do abusador: “Porém, é claro para nós profissionais envolvidos, que, os casos de abuso sexual na infa╠éncia e adolesce╠éncia sa╠âo praticados, na sua maioria, por pessoas ligadas diretamente a╠Çs vi╠ütimas e sobre as quais exercem alguma forma de poder ou de depende╠éncia”.

Ela também revela que o abuso sexual não necessariamente é acompanhado de violência e agressões físicas visíveis, o que torna ainda mais complexa a identificação das vítimas: "Nem sempre o abuso é acompanhado de viole╠éncia fi╠üsica aparente e pode se apresentar de va╠ürias formas e ni╠üveis de gravidade, o que dificulta enormemente a possibilidade de denu╠üncia pela vi╠ütima e a confirmac╠ža╠âo diagno╠üstica pelos meios hoje oferecidos pelas medidas legais de averiguac╠ža╠âo do crime”.

Consequências na vida adulta do menor que sofreu abusos

A especialista cita efeitos psicolo╠ügicos do abuso sexual e ressalta como eles podem ser devastadores: “os problemas decorrentes do abuso persistem na vida adulta dessas crianc╠žas. Essas vi╠ütimas sa╠âo submetidas a uma violação inominável e apresentam tristeza constante, prostrac╠ža╠âo, sonole╠éncia diurna, medo exagerado de adultos, habitualmente aquele do sexo do abusador, além de apresentarem histo╠ürico de fugas, comportamento sexual adiantado para idade, masturbac╠ža╠âo frequente e descontrolada, tiques ou manias, enurese ou encoprese e baixo amor-pro╠üprio na vida adulta”.

Além disto, a neuropsicóloga também salienta que existe a possibilidade de transitar da passividade da experie╠éncia para a atividade e aplicar ao mundo externo a agressa╠âo que lhe foi conferida: “a criança se desforra por procurac╠ža╠âo. Assim, estabelece-se um processo defensivo, o qual tende a se perpetuar, que é a identificac╠ža╠âo com o agressor como uma maneira psi╠üquica de sobreviver ao abuso. A vi╠ütima, ao se igualar com o seu agressor e se converter em molestadora, torna o abuso sexual um legado passado a╠Ç pro╠üxima gerac╠ža╠âo de vi╠ütimas. De outra forma, podera╠ü apresentar a possibilidade de estabelecer uma relac╠ža╠âo abusiva consigo mesmo, como acontece nos casos de revitimizac╠ža╠âo”.

A vulnerabilidade a╠Çs sequelas do abuso sexual depende do tipo de abuso, de sua cronicidade, da idade da vi╠ütima e do relacionamento geral que tem com o agressor: "Seus efeitos podem ser devastadores e perpe╠ütuos, na╠âo estando descrito, no entanto, nenhum sintoma psiquia╠ütrico especi╠üfico resultante do abuso sexual. Essa seque╠éncia vai provocar uma cascata de reac╠žo╠âes de autodefesa ou de autodestruic╠ža╠âo, na depende╠éncia da assiste╠éncia e protec╠ža╠âo oferecidas a essas vi╠ütimas”, salienta.

ÔÇĘPor que as crianças se calam sobre os abusos sofridos?

A pesquisadora responde com base nas experiências profissionais e em estudos de casos da literatura médica e da psicologia: "Sentindo-se desprotegida pelo outro responsa╠üvel, habitualmente a ma╠âe, que permitiu a aproximac╠ža╠âo do abusador, insegura por imaginar que realmente na╠âo seria ouvida ou acreditada, envergonhada tanto pelo que passa, como pela sua impossibilidade de denunciar, por seu amor pro╠üprio reduzido e, ainda, ameac╠žada por aquele de quem habitualmente depende fi╠üsica e emocionalmente, ela se cala, muitas vezes. Há um pacto familiar de sile╠éncio. Isso demonstra a distorc╠ža╠âo que a sociedade mante╠üm nesse tipo de viole╠éncia, quando remete habitualmente a imagem do agressor ao estranho, marginal ou psicopata de rua”.
O abuso sexual atinge a ambos os gêneros

E╠ü preciso que se leve em conta, tambe╠üm, que o abuso sexual ocorre para os dois sexos: “a maior incide╠éncia seja em vítimas do sexo feminino, mas ambos estão sujeitos a serem molestados. Os casos mais frequentes de viole╠éncia sexual ate╠ü a adolesce╠éncia sa╠âo decorrentes de incesto, ou seja, quando o agressor tem ou mante╠üm algum grau de parentesco com a vi╠ütima, determinando muito mais grave lesa╠âo psicolo╠ügica do que na agressa╠âo sofrida por estranhos”.

Em algumas situac╠žo╠âes, quando o incesto e╠ü revelado, as ma╠âes podem reagir de modo diferente do esperado e trazer complicações adicionais: “algumas reagem com ciu╠ümes, colocando a filha como rival e lhe atribui a responsabilidade pelo ocorrido. Para corroborar com essa pra╠ütica, estaria a dificuldade de a ma╠âe reconhecer o incesto, pois seria o reconhecimento de seu fracasso como ma╠âe e esposa, enquanto que o abusador usa de todos os meios para manter seus atos em sile╠éncio e encobertos. E╠ü possi╠üvel, enta╠âo, concluir que o abuso sexual faz parte de um conjunto de rupturas de relacionamentos, em uma estrutura doente familiar, mantendo, na maioria dos casos, uma cegueira e surdez coletiva aos apelos, muitas vezes mudos, da vi╠ütima.

Acolhimento e Amparo

Na opinião da especialista, o acolhimento da crianc╠ža ou adolescente e de sua dor e╠ü o primeiro passo para um bom resultado do tratamento fi╠üsico e emocional que sera╠âo necessa╠ürios: "A escuta de sua histo╠üria, livre de preconceitos, sem interrupções ou solicitac╠žo╠âes de detalhamentos desnecessa╠ürios para a conduc╠ža╠âo do caso, vai demonstrar respeito a quem foi desrespeitado no que tem de mais precioso, que e╠ü seu corpo, sua imagem e seu amor-pro╠üprio”.

A Dra. Roselene afirma que o psicólogo deve lembrar sempre que esta╠ü diante de uma crianc╠ža extremamente fragilizada: “a vítima está confusa em seus sentimentos, humilhada, envergonhada, culpada, desamparada. E╠ü preciso que se crie um bom vi╠ünculo, nunca prometendo o que na╠âo se pode cumprir, como, por exemplo, que essa viole╠éncia na╠âo mais acontecera╠ü, ou que a crianc╠ža estara╠ü sempre protegida, ou que nunca mais irá lembrar disso. Deve-se diferenciar a conduc╠ža╠âo do atendimento inicial para as situac╠žo╠âes agudas do estupro ou outra forma de abuso sexual que sa╠âo emergenciais e demandam uma seque╠éncia de condutas de assiste╠éncia imediata, tanto a╠Ç sau╠üde fi╠üsica como emocional, daquelas cro╠énicas e repetitivas, ambas extremamente desastrosas para a crianc╠ža ou adolescente”.

Procedimentos legais no combate ao abuso

Nos casos agudos, com menos de 72 horas do ocorrido, as medidas legais ja╠ü devem acompanhar toda assiste╠éncia inicial de diagno╠üstico e tratamento. Para fins de processo judicial e a necessa╠üria comprovac╠ža╠âo da agressa╠âo sexual, bem como a confecc╠ža╠âo de exames que levem a╠Ç identificac╠ža╠âo do agressor, e╠ü preciso que os responsa╠üveis fac╠žam um boletim de ocorre╠éncia em delegacia de poli╠ücia, que requisitara╠ü o laudo pericial do Instituto Me╠üdico Legal. Na recusa dos responsa╠üveis em fazer a denu╠üncia, a hipo╠ütese de autoria, conive╠éncia ou impote╠éncia deve ser levantada, sendo enta╠âo obrigato╠üria a presenc╠ža do Conselho Tutelar, assumindo o poder de tutela proviso╠üria pela vi╠ütima e o apoio a╠Çs atitudes de protec╠ža╠âo que se fizerem necessa╠ürias. Na falta do Conselho Tutelar, a Vara da Infa╠éncia e Juventude deve ser acionada. 


Autor: Fabiano de Abreu
Fonte: MF Press Global
Autor da Foto: Pixabay / MF Press Global

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