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Agosto Lilás: o autossilenciamento que acompanha as relações abusivas

Artigo de Danielle Vieira

07/08/2026 A autora Fonte: Luísa Santini Compartilhar:
Agosto Lilás: o autossilenciamento que acompanha as relações abusivas
Foto: Magnific

Você já mediu palavras ou deixou de fazer algo porque teve medo da reação da outra pessoa? Ou mudou comportamentos porque acreditava que seu companheiro não saberia lidar com aquela situação? Sentiu insegurança ou desconfiou da própria percepção, mesmo sendo uma pessoa segura de si? 

Nesse movimento que acontece aos poucos, passamos a ajustar a nossa forma de existir para caber no espaço do outro, limitando a espontaneidade e cerceando nossa capacidade de ser. Esse fenômeno descrito por alguns autores como autossilenciamento ou self-silence consiste em inibir pensamentos, sentimentos, desejos e ações para evitar conflitos, retaliações ou a perda da relação. 

Para a psicanalista Jessica Benjamin, uma relação depende da capacidade de sustentar uma tensão fundamental que é afirmar a própria existência sem anular a do outro. Reconhecer alguém significa suportar que o outro seja realmente outro, um sujeito separado, com pensamentos, desejos e limites que não coincidem necessariamente com os nossos.  

Nas dinâmicas de controle, buscamos garantias do amor através de comportamentos esperados que podem não acontecer, e que aos poucos podem se tornar críticas ao parceiro: ironias, mudanças de humor, acusações ou até longos silêncios como forma de punição. Por isso, o controle raramente se satisfaz. Quanto mais o outro cede, menos essa concordância parece suficiente. E então, para aliviar a própria insegurança, passamos a exigir ainda mais provas, mais adaptações e mais controle. 

Do outro lado passa a acontecer o famoso “pisar em ovos”, adaptações, obediência, e uma tentativa de antecipar reações para se proteger do caos emocional. O outro já não precisa demandar algo porque a própria pessoa começa a se vigiar e silenciar diante do que pode vir a acontecer. 

É importante lembrar que amar e se relacionar exige constante negociação, capacidade de tolerar frustrações e renúncias. Mas é essencial perceber se esse movimento acontece dos dois lados ou se apenas uma pessoa precisa se adaptar continuamente para que a relação sobreviva. Por isso, um dos sinais mais precoces de que uma relação pode se tornar perigosa é perceber não apenas o comportamento do parceiro, mas o que está acontecendo dentro de nós. Assim, podemos desenvolver a consciência de que estar em um relacionamento não significa que precisamos nos afastar de nós mesmos. 

*Danielle Vieira é psicóloga e psicanalista, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela UMinho (PT), fundadora do IIPB e autora do livro “Amor moderno: o nosso mundo evitativo” (Editora Labrador).

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